Primeira onda de calor do El Niño: temperaturas podem passar dos 40 °C e chuva volta ao radar
O Brasil enfrenta a primeira onda de calor da primavera de 2026 em meio a um El Niño que segue ganhando força. O episódio traz temperaturas excepcionalmente altas para diversas regiões do país e, ao mesmo tempo, aumenta a atenção para a chegada de tempestades e mudanças no padrão das chuvas.
Por Beatriz Karins — Engenheira Agrônoma | Bia do Agro28 de setembro de 2026
A primavera mal começou e o calor já ganhou destaque em boa parte do Brasil.
Uma massa de ar excepcionalmente quente atua sobre parte da América do Sul e provoca temperaturas muito acima do normal em áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a primeira onda de calor da primavera começou no sábado, dia 26 de setembro. Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná estão entre os estados abrangidos integralmente pelo alerta, enquanto outras áreas do Centro-Oeste e Sudeste também enfrentam temperaturas muito elevadas.
Em algumas localidades do Brasil Central, os termômetros podem ultrapassar 40 °C.
Mas há outro componente importante nessa história: o El Niño está de volta e continua se intensificando.
O que o El Niño tem a ver com esse calor?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e pode provocar alterações importantes na circulação atmosférica e no regime de chuvas e temperaturas em diversas partes do planeta.
O fenômeno já está estabelecido em 2026.
Dados divulgados pelo CPTEC/INPE indicam aquecimento acima da média no Pacífico Equatorial e apontam para a persistência e intensificação dessas condições durante a primavera.
Isso não significa, porém, que todo episódio individual de calor seja causado exclusivamente pelo El Niño.
O calor observado neste fim de setembro está diretamente associado à presença de uma massa de ar excepcionalmente quente sobre a parte central da América do Sul. O El Niño faz parte de um cenário climático mais amplo capaz de favorecer alterações nos padrões de temperatura e precipitação ao longo da estação.
Quão forte será essa onda de calor?
O INMET prevê temperaturas muito elevadas em diferentes áreas do país.
Em cidades de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, as máximas podem ultrapassar os 40 °C. Cuiabá, por exemplo, entrou nas projeções com máximas próximas dos 41 °C.
Análises meteorológicas também indicam possibilidade de marcas entre 43 °C e 45 °C de forma localizada em áreas sob influência da massa de ar extremamente quente na América do Sul.
Mais importante do que olhar apenas para o número registrado no termômetro é observar por quanto tempo essas temperaturas permanecem acima do normal.
Uma onda de calor caracteriza-se justamente pela persistência de temperaturas excepcionalmente altas durante vários dias.
E o Paraná?
O Paraná também está no caminho dessa onda de calor.
O estado foi incluído integralmente na área de alerta do INMET, juntamente com Mato Grosso do Sul e São Paulo.
E a situação chama atenção porque o calor não é o único fenômeno meteorológico presente.
Ao mesmo tempo em que as temperaturas permanecem elevadas, áreas de instabilidade avançam e há alertas para ocorrência de tempestades em diferentes regiões paranaenses.
É aquele cenário bastante conhecido na primavera: calor, aumento da umidade e mudanças rápidas nas condições atmosféricas.
Depois do calor vem chuva?
Em algumas regiões, sim — mas é preciso tomar cuidado com essa afirmação.
Calor intenso sozinho não significa necessariamente que irá chover.
Para ocorrer precipitação, é necessária uma combinação de fatores, incluindo disponibilidade de umidade e condições atmosféricas favoráveis à formação das nuvens.
Neste episódio, entretanto, existe previsão de mudança do tempo.
Uma frente fria deve avançar pelo Sul do Brasil no decorrer da semana, contribuindo para reduzir as temperaturas em algumas áreas e favorecendo instabilidades.
No Paraná, inclusive, já existem áreas com previsão de chuva e risco de tempestades.
Portanto, podemos passar em poucos dias de um cenário de calor intenso para outro marcado por chuvas, rajadas de vento e tempestades localizadas.
E o que isso representa para a agricultura?
Para quem trabalha no campo — ou simplesmente mantém uma horta ou pomar em casa — períodos de calor intenso exigem atenção.
Temperaturas muito elevadas aumentam a perda de água pelas plantas e pelo solo, elevando a demanda hídrica das culturas.
Dependendo da espécie e da fase de desenvolvimento, o estresse térmico também pode afetar processos como:
florescimento;
pegamento de frutos;
fotossíntese;
crescimento;
qualidade dos frutos;
eficiência da irrigação;
absorção e transporte de nutrientes.
Hortaliças são particularmente sensíveis a determinados extremos de temperatura.
Tomate, alface, morango, pimentão e outras culturas podem apresentar respostas diferentes ao calor dependendo da variedade, estágio de desenvolvimento, disponibilidade de água e manejo adotado.
Irrigar mais resolve?
Não necessariamente.
Em períodos muito quentes, é natural que a necessidade de água aumente. Mas simplesmente aumentar a quantidade de irrigação sem observar o solo pode provocar outros problemas.
O ideal é acompanhar a umidade do solo e ajustar a frequência e a lâmina de irrigação conforme a cultura, o tipo de solo e as condições ambientais.
Também é importante evitar grandes oscilações entre períodos de solo muito seco e muito úmido.
Em algumas culturas, essas mudanças bruscas podem favorecer problemas fisiológicos e comprometer a qualidade da produção.
Calor seguido de chuva também merece atenção
Outro ponto importante para o produtor é justamente a transição.
Depois de vários dias quentes, a chegada de umidade e chuva pode alterar rapidamente as condições dentro da lavoura.
Maior período de molhamento foliar e elevada umidade relativa podem criar condições favoráveis ao desenvolvimento de determinadas doenças.
Por isso, acompanhar a previsão meteorológica não serve apenas para decidir quando irrigar ou plantar.
O clima faz parte do manejo.
O El Niño ainda deve permanecer conosco
As projeções climáticas indicam que o El Niño deve continuar atuando nos próximos meses.
O CPTEC/INPE aponta manutenção das condições de El Niño pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, com forte sinal de intensificação durante a primavera de 2026.
Isso significa que ainda poderemos acompanhar muitos episódios importantes envolvendo chuva, calor e eventos meteorológicos extremos durante esta primavera e o próximo verão.
Mas vale lembrar: El Niño não é previsão do tempo.
Ele influencia os padrões climáticos em escalas maiores. Para saber se vai chover amanhã em uma determinada cidade, continuam sendo necessárias previsões meteorológicas de curto prazo.
Para quem produz, informação também é ferramenta de manejo
Temperatura, chuva, umidade e vento interferem diretamente na agricultura.
Por isso, acompanhar as mudanças meteorológicas e entender o que existe por trás delas ajuda na tomada de decisões — desde uma pequena horta doméstica até áreas comerciais de produção.
E esta primeira onda de calor da primavera mostra justamente isso: em poucos dias podemos passar de temperaturas excepcionalmente elevadas para um cenário de instabilidade e tempestades em determinadas regiões.
A primavera de 2026 está apenas começando.
E, com um El Niño intenso em desenvolvimento, o clima certamente será um dos assuntos que continuaremos acompanhando por aqui.
Fontes consultadas
Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) — boletins e alertas meteorológicos sobre a primeira onda de calor da primavera de 2026.
Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) — monitoramento do El Niño/Oscilação Sul (ENOS).
SIMEPAR — Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná.
MetSul Meteorologia — análises sobre a massa de ar quente e os episódios de chuva no Centro-Sul do Brasil.
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