Bicarbonato ajuda no controle do oídio? Entenda como usar e o que mostram as pesquisas
Aquele pó branco que aparece sobre as folhas pode ser sinal de oídio, uma doença bastante comum em hortas, jardins e diferentes culturas agrícolas. O bicarbonato é frequentemente citado como alternativa para o seu manejo. Mas será que funciona mesmo? E, principalmente, qual quantidade foi utilizada nas pesquisas?
Por Beatriz Karins | Engenheira Agrônoma UFPR | Bia do AgroQuem cultiva uma horta ou cuida de plantas ornamentais provavelmente já passou por isso. Primeiro aparecem algumas manchas brancas nas folhas. Pouco tempo depois, parece que alguém jogou farinha sobre a planta.
Essa aparência é bastante característica do oídio.
Quando o problema aparece, uma das alternativas mais comentadas é o bicarbonato. É uma daquelas dicas que passam de pessoa para pessoa e aparecem aos montes na internet.
Mas existe ciência por trás disso?
Sim. Existem pesquisas que demonstraram efeito de bicarbonatos sobre o oídio.
Só que existe uma diferença enorme entre dizer que bicarbonato funciona e afirmar que qualquer quantidade de bicarbonato misturada com água pode ser aplicada em qualquer planta.
Vamos entender isso melhor.
O que é o oídio?
O oídio é o nome dado a doenças provocadas por diferentes espécies de fungos que podem atacar hortaliças, frutíferas, plantas ornamentais e diversas culturas agrícolas.
Um dos sintomas mais conhecidos é justamente a formação de uma camada branca ou acinzentada sobre a superfície das folhas.
No começo podem aparecer apenas pequenos pontos esbranquiçados. Conforme a doença evolui, essas manchas aumentam e podem ocupar boa parte da folha.
Em ataques mais severos, a doença pode reduzir a área fotossinteticamente ativa, causar amarelecimento, queda prematura das folhas e prejudicar o desenvolvimento da planta.
Por isso, não estamos falando apenas de um problema estético.
O bicarbonato realmente funciona contra o oídio?
Existem resultados experimentais bastante interessantes.
Pesquisadores avaliaram o bicarbonato de sódio no controle do oídio do pepino, em condições de casa de vegetação.
Foram testadas soluções contendo diferentes concentrações de bicarbonato de sódio e os pesquisadores observaram redução significativa na severidade e no progresso da doença.
Outro trabalho avaliou bicarbonato de potássio contra o oídio da soja e também encontrou efeito sobre a doença.
Portanto, a utilização de bicarbonatos contra o oídio não nasceu simplesmente de uma receita que circula pela internet.
Existe pesquisa científica por trás dessa possibilidade de manejo.
Qual quantidade de bicarbonato foi utilizada?
Agora chegamos à parte que costuma gerar mais dúvidas.
No experimento realizado com pepino foram avaliadas diferentes concentrações de bicarbonato de sódio.
Entre as concentrações estudadas estavam soluções na faixa de 0,5% a 2% de bicarbonato de sódio, aplicadas sobre as plantas em condições experimentais.
Mas o que significa uma solução de 1%, por exemplo?
Em uma relação simples de massa por volume:
0,5% corresponde aproximadamente a 5 gramas por litro de água.
1% corresponde aproximadamente a 10 gramas por litro de água.
1,5% corresponde aproximadamente a 15 gramas por litro de água.
2% corresponde aproximadamente a 20 gramas por litro de água.
Essa conversão ajuda a entender as concentrações utilizadas experimentalmente.
Mas atenção: isso não significa que 20 gramas por litro seja uma receita que deva ser aplicada indiscriminadamente em qualquer planta.
A tolerância varia entre espécies e condições de cultivo.
Então posso preparar 10 gramas por litro e pulverizar?
É justamente aqui que precisamos separar duas coisas.
Uma coisa é dizer:
“Uma pesquisa avaliou determinada concentração e encontrou determinado resultado.”
Outra, bastante diferente, é afirmar:
“Essa é a dose recomendada para qualquer planta.”
Os estudos foram conduzidos sob condições específicas, com culturas determinadas, metodologia própria e acompanhamento dos pesquisadores.
Por isso, os valores apresentados aqui servem para mostrar o que foi estudado cientificamente, e não para criar uma recomendação universal.
Para quem está pensando em testar uma alternativa desse tipo em poucas plantas de uma horta doméstica, prudência é fundamental.
Antes de qualquer aplicação generalizada, é importante considerar a espécie vegetal e testar a tolerância em uma pequena área ou em poucas folhas, observando posteriormente se surgem queimaduras, manchas ou outros sinais de fitotoxicidade.
Bicarbonato de sódio e bicarbonato de potássio são iguais?
Não.
O bicarbonato de sódio é o produto muito conhecido no ambiente doméstico.
Já o bicarbonato de potássio também tem sido estudado para o manejo de doenças de plantas, incluindo o oídio.
Em trabalho realizado com soja, pesquisadores observaram redução da doença com bicarbonato de potássio.
Os resultados também mostraram ação sobre estruturas do próprio fungo, interferindo na germinação e formação de conídios.
Isso ajuda a explicar por que esses compostos podem dificultar o desenvolvimento do patógeno.
Mais bicarbonato significa mais controle?
Não necessariamente.
E esse é provavelmente um dos pontos mais importantes deste artigo.
Em experimentos com bicarbonato de potássio, concentrações mais elevadas apresentaram bom efeito sobre a doença, mas também foram observados sintomas de fitotoxicidade em determinadas condições.
Em outras palavras, aquilo que prejudica o fungo também pode prejudicar a planta quando utilizado inadequadamente.
É por isso que uma receita da internet dizendo apenas:
“Coloque algumas colheres de bicarbonato em água e pulverize.”
não é uma orientação suficientemente segura.
Precisamos saber qual produto está sendo utilizado, sua concentração, a espécie vegetal, o estágio da planta e as condições da aplicação.
Como a aplicação foi estudada?
Nos experimentos, as soluções foram aplicadas diretamente sobre as plantas, de forma a atingir a superfície vegetal onde o patógeno se desenvolve.
Isso faz sentido porque o oídio apresenta grande parte de suas estruturas sobre a superfície dos tecidos vegetais.
Portanto, quando falamos de bicarbonato nesse contexto, estamos falando principalmente de aplicação foliar, e não de colocar bicarbonato no solo ou na água de irrigação.
Aplicar bicarbonato no solo sem necessidade é outra história e pode interferir em características químicas do ambiente radicular.
O momento da aplicação também importa
Esperar até que praticamente toda a planta esteja coberta de oídio não é uma boa estratégia.
Alternativas de contato tendem a fazer mais sentido quando utilizadas dentro de um manejo iniciado nos primeiros sinais da doença.
Por isso, a observação frequente das plantas é tão importante.
Encontrou as primeiras manchas?
Observe as folhas próximas.
Veja se os sintomas estão aumentando.
Confira outras plantas.
E, principalmente, tenha certeza de que realmente se trata de oídio.
Nem toda mancha branca é a mesma coisa.
E colocar detergente, óleo ou leite junto?
Aqui eu teria cautela.
Existem diversas receitas circulando na internet combinando bicarbonato, detergente, óleo vegetal, leite e outros ingredientes.
Alguns desses componentes também já foram objeto de pesquisas separadamente.
Mas misturar várias substâncias simplesmente porque cada uma possui alguma fama de funcionar não significa que a combinação seja melhor ou mais segura.
A mistura pode modificar a aderência, a cobertura e até a fitotoxicidade da solução.
Por isso, quando apresentamos uma pesquisa, prefiro manter a informação fiel ao que efetivamente foi estudado.
Manejo do oídio não começa no pulverizador
Essa talvez seja a parte menos chamativa, mas é uma das mais importantes.
Antes de procurar qualquer produto, observe o ambiente onde as plantas estão crescendo.
O manejo pode incluir:
Boa circulação de ar entre as plantas.
Espaçamento adequado.
Remoção criteriosa de tecidos muito comprometidos.
Monitoramento frequente das folhas.
Utilização de mudas sadias.
Escolha de cultivares menos suscetíveis quando disponíveis.
Manejo adequado da nutrição e irrigação.
Quanto mais cedo identificamos o problema, mais opções temos para manejá lo.
E para quem tem uma horta em casa?
Na horta doméstica existe uma vantagem enorme: normalmente conseguimos olhar cada planta individualmente.
Use isso a seu favor.
Virar algumas folhas, observar brotações novas e perceber pequenas alterações antes que o problema avance pode fazer uma diferença enorme.
E aqui entra uma regra simples que vale para muita coisa na agronomia:
Antes de tratar, identifique.
Se você não sabe qual é o problema, fica muito difícil escolher corretamente a solução.
Natural não significa inofensivo
Esse é outro conceito importante.
Um produto ser simples, doméstico ou considerado uma alternativa não significa que possa ser aplicado em qualquer concentração.
Até substâncias relativamente comuns podem provocar danos aos tecidos vegetais.
Por isso, concentração importa.
Cultura importa.
Momento de aplicação importa.
Condição ambiental importa.
Agronomia raramente combina com receitas universais.
E em produção comercial?
Quando saímos de algumas plantas no quintal e entramos em produção agrícola comercial, o assunto exige ainda mais cuidado.
O produtor deve considerar produtos registrados, culturas autorizadas, doses, intervalos de aplicação, período de carência quando aplicável e demais exigências previstas na legislação.
No Brasil, essas informações podem ser consultadas nos sistemas oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Resultados de experimentos científicos são extremamente importantes para desenvolver novas estratégias de manejo, mas não substituem automaticamente as recomendações de produtos devidamente registrados para uso agrícola.
Afinal, vale a pena considerar o bicarbonato contra o oídio?
Os estudos mostram que bicarbonatos podem apresentar efeito interessante sobre o oídio.
Isso torna o assunto muito mais interessante do que simplesmente classificá lo como uma receita caseira.
Há ciência por trás dessa alternativa.
Ao mesmo tempo, a própria ciência nos mostra que concentração e condições de aplicação fazem diferença e que doses inadequadas podem provocar fitotoxicidade.
Se existe uma mensagem para guardar deste artigo, é esta:
Bicarbonato pode ser uma ferramenta auxiliar no manejo do oídio, mas não existe uma receita universal que sirva para todas as plantas.
Observe a cultura, identifique corretamente a doença e tenha cuidado com a concentração utilizada.
No final das contas, entender o problema continua sendo muito mais eficiente do que simplesmente aplicar alguma coisa porque alguém disse que funciona.
Fontes consultadas
Embrapa Amazônia Ocidental
Santos, J. C. P. dos e colaboradores. Controle do oídio do pepino pelo uso de bicarbonato de sódio em condições de casa de vegetação.
Embrapa Meio Ambiente e UNESP
Medice, R.; Bettiol, W.; Mello Altéa, U. Q. Trabalhos relacionados ao efeito do bicarbonato de potássio sobre o oídio da soja.
Ministério da Agricultura e Pecuária
Sistema oficial para consulta de produtos fitossanitários registrados no Brasil.
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