Fertilizantes mais caros: 3 estratégias para usar melhor os nutrientes e reduzir desperdícios

setembro 29, 2026


Com a pressão sobre os preços dos fertilizantes, pesquisadores reforçam que economizar não significa simplesmente reduzir a adubação. A estratégia passa por conhecer o solo e aumentar a eficiência no uso dos nutrientes.

Beatriz Karins | Engenheira Agrônoma UFPR | Bia do Agro

O aumento dos custos dos fertilizantes voltou a colocar uma pergunta importante na mesa: como reduzir os gastos sem comprometer a produtividade?

Li o material “Crise dos fertilizantes: como apoiar agricultores diante da alta nos preços”, elaborado por Heitor Cantarella, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC) e detentor da 5ª Cátedra Luiz de Queiroz, e Paulo Pavinato, professor associado do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP.

E uma das mensagens mais importantes do documento é justamente esta: diante de fertilizantes mais caros, a saída não é simplesmente cortar a adubação indiscriminadamente.

É preciso usar melhor os nutrientes disponíveis.

Por que o Brasil é tão sensível ao preço dos fertilizantes?

Segundo os autores, o Brasil importa atualmente cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura. Isso deixa o país bastante exposto a problemas internacionais que afetem a produção, o transporte, a disponibilidade e o preço desses insumos.

O documento também mostra que as importações de fertilizantes de janeiro a agosto ficaram 14% abaixo das registradas em 2025. Para alguns produtos, a redução foi ainda maior: 23% para ureia e 18% para MAP.

Além da questão da oferta, existe outro problema: a relação de troca.

Os autores apontam que, no momento analisado, era necessário utilizar 22% mais soja para comprar fertilizantes fosfatados.

Ou seja, não estamos falando apenas de fertilizante caro. Estamos falando de um cenário em que aquilo que o produtor vende também compra menos fertilizante.

Nesse contexto, aumentar a eficiência da adubação deixa de ser apenas uma boa prática agronômica e passa a ter um peso ainda maior no planejamento financeiro da propriedade.

E é justamente aqui que entram três recomendações destacadas no material.

1. Análise de solo antes de decidir onde economizar

A primeira recomendação é também uma das mais básicas da agronomia: faça análise de solo.

Parece simples, mas ela muda completamente a maneira de pensar em redução de custos.

A análise permite identificar quais nutrientes já estão presentes em níveis satisfatórios, quais estão limitantes e também verificar condições como a acidez do solo.

Segundo o documento, quando determinado nutriente apresenta teor médio ou alto no solo, pode haver situações em que sua aplicação seja reduzida ou até temporariamente suprimida sem comprometer significativamente a produtividade.

Dessa maneira, o investimento pode ser direcionado para os nutrientes realmente limitantes.

Reduzir tudo não é a mesma coisa que adubar com eficiência

Perceba a diferença.

Não estamos falando em:

“O fertilizante está caro, então vou reduzir tudo.”

Estamos falando em:

“Vou descobrir o que meu solo realmente precisa e direcionar o dinheiro para aquilo que é mais importante.”

São estratégias completamente diferentes.

2. Calagem pode melhorar o aproveitamento dos nutrientes

Outro ponto bastante interessante do material é a importância dada ao calcário.

Em solos ácidos, como muitos dos encontrados no Brasil, a correção adequada da acidez pode aumentar a disponibilidade tanto dos nutrientes que já estão presentes no solo quanto daqueles fornecidos pela adubação.

Além disso, a calagem ajuda a neutralizar o alumínio tóxico, que pode comprometer o desenvolvimento das raízes, e fornece cálcio e magnésio para as plantas.

Isso nos leva a uma questão importante:

Não adianta olhar somente para quanto fertilizante será aplicado. É preciso olhar também para as condições que a planta terá para aproveitar esses nutrientes.

Os autores destacam ainda uma vantagem estratégica do calcário neste momento: trata-se de um insumo abundante no Brasil, produzido em diferentes regiões do país e cujo suprimento não depende das mesmas rotas internacionais mencionadas no documento para outros fertilizantes.

Por isso, corrigir adequadamente a acidez do solo pode ser uma estratégia importante para aumentar a eficiência dos nutrientes disponíveis.

3. Boas práticas ficam ainda mais importantes

Quando existe necessidade de trabalhar com quantidades menores de nutrientes, cada decisão de manejo passa a ter mais importância.

O documento recomenda seguir orientações técnicas de adubação, citando como exemplo o Boletim 100 do IAC, além das recomendações de serviços de extensão, universidades e empresas especializadas e idôneas.

Também podem ser consideradas fontes disponíveis localmente, como estercos, compostos orgânicos e outros materiais que permitam reciclar nutrientes.

Isso não significa substituir automaticamente um fertilizante mineral por qualquer fonte alternativa.

Significa olhar para todo o sistema e procurar maneiras tecnicamente adequadas de aproveitar melhor os nutrientes disponíveis.

E os bioinsumos? Eles podem substituir os fertilizantes?

Esse é outro ponto importante levantado pelos autores.

O material relata aumento da área tratada com bioinsumos, incluindo microrganismos fixadores de nitrogênio utilizados em cereais como milho e trigo e bactérias solubilizadoras de fósforo.

Mas existe uma ressalva muito importante:

Os bioinsumos podem ajudar a reduzir parcialmente a necessidade de determinados fertilizantes, mas não são capazes de substituir 100% dos fertilizantes minerais.

Esse cuidado é importante porque às vezes encontramos a ideia de que um produto biológico simplesmente eliminará a necessidade de adubação.

Não é isso que o documento afirma.

Cuidado ao usar a “poupança” do solo

Talvez uma das melhores formas de entender a recomendação dos pesquisadores seja pensar na fertilidade do solo como uma espécie de poupança.

Um solo que recebeu manejo adequado e adubação ao longo dos anos pode possuir reservas de determinados nutrientes.

Em algumas situações, a análise de solo pode mostrar que existe espaço para reduzir temporariamente a aplicação de determinado nutriente e utilizar parte dessa fertilidade já construída.

Mas existe um detalhe fundamental.

Essa poupança não é infinita.

Os autores alertam que reduzir ou até suspender temporariamente a aplicação de fertilizantes significa utilizar parte do estoque de nutrientes acumulado no solo.

No médio e longo prazo, continuar retirando nutrientes sem reposição pode empobrecer o solo e comprometer sua capacidade de sustentar altas produtividades.

Por isso, quando as condições econômicas e as relações de troca melhorarem, essa fertilidade utilizada durante o período de crise precisará ser recomposta por meio de adubações adequadas.

Então, como economizar fertilizante?

A principal mensagem que eu tiraria desse material é bastante simples:

Economizar fertilizante não é necessariamente aplicar menos. É utilizar melhor.

Antes de reduzir doses, precisamos entender o que existe no solo, corrigir fatores que prejudicam o aproveitamento dos nutrientes e direcionar o investimento para aquilo que realmente está limitando a produção.

Análise de solo, calagem bem planejada e boas práticas de manejo talvez não sejam novidades para quem trabalha com fertilidade.

Mas quando o fertilizante fica caro, fazer bem o básico se torna ainda mais importante.

Fonte e créditos

Este conteúdo foi elaborado a partir da leitura do documento “Crise dos fertilizantes: como apoiar agricultores diante da alta nos preços”, de Heitor Cantarella, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC) e detentor da 5ª Cátedra Luiz de Queiroz, e Paulo Pavinato, professor associado do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP.

A publicação apresenta orientações técnicas para melhorar a eficiência no uso dos fertilizantes diante do atual cenário de preços e disponibilidade. Não se trata da apresentação de um novo experimento científico.

A campanha é uma iniciativa da 5ª Cátedra Luiz de Queiroz, da ESALQ/USP, com apoio de ANDA, ABRACAL, Instituto Agronômico (IAC), ESALQ/USP e CCARBON.

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