O Brasil processou 1,437 milhão de toneladas de tomate industrial em 2025, mas continua registrando déficit comercial em pasta de tomate. Entenda por que o país ainda importa esse derivado, o papel da produtividade agrícola e como o clima afetou as estimativas para 2026.
Beatriz Karins | Engenheira Agrônoma UFPR | Bia do Agro
Essa situação foi abordada em uma reportagem publicada pelo Notícias Agrícolas, em 30 de setembro de 2026, assinada pelo jornalista Guilherme Dorigatti. Ao ler a matéria, um dado chamou minha atenção: o Brasil processou mais de 1 milhão de toneladas de tomate por ano nas últimas safras, mas continuou apresentando saldo comercial negativo em pasta de tomate.
A partir dessa informação, fui consultar também os dados do World Processing Tomato Council (WPTC) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para entender melhor o cenário.
O resultado mostra que a questão não envolve apenas a quantidade de tomate produzida. Produtividade agrícola, características da matéria-prima, processamento industrial, demanda e condições climáticas também fazem parte dessa discussão.
Quanto tomate industrial o Brasil produz?
Segundo os dados do World Processing Tomato Council (WPTC), o Brasil processou aproximadamente 1,65 milhão de toneladas de tomate em 2024 e 1,437 milhão de toneladas em 2025.
Esses números representam o volume de tomate destinado ao processamento industrial, e não a quantidade de pasta de tomate obtida depois da industrialização.
Essa diferença é importante porque o tomate fresco possui elevada quantidade de água. Durante a fabricação de produtos concentrados, parte dessa água é retirada, reduzindo o volume final em relação à matéria-prima utilizada.
Portanto, processar mais de 1 milhão de toneladas de tomate não significa fabricar mais de 1 milhão de toneladas de pasta.
Se o Brasil produz tanto, por que ainda importa pasta de tomate?
De acordo com o levantamento da Tomato News, divulgado pelo Notícias Agrícolas com base em informações de comércio exterior e do WPTC, o Brasil registrou um déficit comercial de aproximadamente 33 mil toneladas de pasta de tomate em 2024.
Entre janeiro e novembro de 2025, o saldo negativo chegou a 32,7 mil toneladas, volume cerca de 4% superior ao observado no mesmo período do ano anterior.
Isso significa que, nesses períodos, as importações brasileiras de pasta superaram as exportações em volume.
É importante destacar que esse indicador não representa diretamente uma falta de tomate fresco nas lavouras brasileiras.
A demanda industrial envolve diferentes derivados, concentrações e especificações de matéria-prima. Uma indústria pode precisar de determinado tipo de pasta para sua formulação, enquanto a produção nacional também abastece outros segmentos do mercado.
Segundo a reportagem, Estados Unidos e Chile estão entre os fornecedores de pasta ao Brasil, além de outros países que participam desse comércio.
Produção total de tomate e tomate industrial são coisas diferentes
Para compreender melhor esses números, vale observar também as estatísticas do IBGE.
Segundo os dados da Produção Agrícola Municipal, o Brasil produziu aproximadamente 4,66 milhões de toneladas de tomate em 2025.
Esse indicador considera a produção brasileira de tomate de maneira mais ampla, enquanto os dados do WPTC utilizados anteriormente se referem especificamente ao tomate destinado ao processamento industrial.
Por isso, não devemos comparar diretamente os dois volumes como se representassem a mesma categoria.
O tomate comercializado para consumo in natura e aquele destinado à indústria fazem parte de cadeias que apresentam diferenças de mercado, manejo, colheita e exigências de qualidade.
O que está acontecendo com a produção brasileira em 2026?
O cenário da safra de 2026 também merece atenção.
Em junho, o WPTC trabalhava com uma projeção de aproximadamente 1,467 milhão de toneladas de tomate para processamento no Brasil.
Entretanto, após problemas climáticos em importantes regiões produtoras, a estimativa foi reduzida para cerca de 1,35 milhão de toneladas.
Na atualização de 31 de julho, o WPTC manteve essa projeção. Em 14 de agosto, a entidade informou que não havia alterações no cenário brasileiro.
Trata-se de uma estimativa de safra, e não de um resultado definitivo de produção.
Como as chuvas afetaram o tomate industrial?
Segundo as informações divulgadas pelo WPTC e repercutidas pelo Notícias Agrícolas, chuvas acima do normal durante maio e junho afetaram áreas produtoras de Goiás e São Paulo.
Foram relatados danos em determinadas lavouras, aumento da incidência de doenças e redução da produtividade esperada.
Do ponto de vista agronômico, o tomateiro precisa de disponibilidade adequada de água, mas períodos prolongados de excesso de umidade podem prejudicar as condições de cultivo.
Além dos efeitos diretos sobre a lavoura, condições climáticas desfavoráveis podem dificultar operações agrícolas e interferir na programação da colheita.
Isso ajuda a compreender por que uma cadeia produtiva tecnificada continua sujeita às oscilações climáticas.
Goiás e o avanço da produtividade do tomate industrial
A reportagem do Notícias Agrícolas também apresentou um exemplo envolvendo a operação brasileira da Kraft Heinz.
Segundo informações fornecidas pela companhia, sua cadeia de produtores parceiros trabalha com aproximadamente 2.500 hectares de tomate em Goiás.
Para 2026, a empresa projetou um crescimento de 15% na produção, mantendo uma área cultivada praticamente estável.
É importante observar que esse percentual representa uma projeção informada pela empresa para sua própria operação, e não uma estimativa de crescimento de toda a produção brasileira.
O caso demonstra a importância de avaliar não apenas a expansão de área, mas também os resultados obtidos em cada hectare cultivado.
Produzir mais na mesma área: qual é o papel da agronomia?
Quando falamos em produtividade, estamos relacionando a quantidade produzida com a área utilizada.
No tomate industrial, os resultados dependem de um conjunto de decisões que começa antes mesmo do transplantio das mudas.
A escolha dos híbridos, o planejamento da implantação, o manejo da irrigação, a nutrição mineral, o acompanhamento fitossanitário e a definição do momento adequado de colheita fazem parte desse processo.
Essas práticas precisam ser ajustadas às condições locais, ao sistema de produção e às exigências da indústria que receberá a matéria-prima.
Não existe uma medida isolada capaz de garantir aumento de produtividade em todas as situações.
Também não podemos esquecer que produzir mais toneladas não é o único objetivo. A qualidade dos frutos e suas características para processamento são fundamentais para o aproveitamento industrial.
Uma indústria brasileira conseguiu substituir pasta importada?
Segundo as informações apresentadas pela Kraft Heinz ao Notícias Agrícolas, sim.
A companhia relatou que anteriormente utilizava parte da pasta de tomate importada da Califórnia em sua operação brasileira.
Após investimentos na cadeia agrícola e industrial, a empresa afirma ter alcançado, em 2025, autossuficiência na pasta utilizada para produzir o ketchup Heinz destinado ao mercado brasileiro.
Esse resultado foi atribuído pela companhia ao desenvolvimento dos produtores parceiros, à incorporação de tecnologias e aos investimentos realizados ao longo da cadeia.
Entretanto, precisamos fazer uma distinção: a autossuficiência de uma operação industrial não significa que o Brasil inteiro deixou de importar pasta de tomate.
Os dados comerciais apresentados anteriormente mostram que o mercado brasileiro ainda registra déficit nesse derivado.
O que esses números mostram para o agronegócio brasileiro?
O cenário revela uma relação importante entre produção agrícola e capacidade de atendimento às necessidades industriais.
Ampliar a produtividade do tomate industrial pode contribuir para aumentar a disponibilidade de matéria-prima nacional. Entretanto, a substituição de importações também depende de fatores como processamento, especificações dos produtos, custos, logística e demanda.
Outro ponto relevante é a exposição da cadeia aos eventos climáticos. A revisão das estimativas brasileiras de 2026 mostra como condições adversas podem modificar o volume esperado de uma safra.
Para o produtor, isso reforça a importância do planejamento técnico e do acompanhamento constante das condições da lavoura.
Para a indústria, destaca a necessidade de integrar produção agrícola, qualidade da matéria-prima e capacidade de processamento.
O Brasil pode reduzir a dependência da pasta de tomate importada?
O exemplo apresentado pela Kraft Heinz indica que a substituição de matéria-prima importada pode ocorrer dentro de uma operação específica, quando existem condições agrícolas, industriais e comerciais para isso.
Mas não seria correto transformar esse caso em uma previsão de autossuficiência nacional.
O Brasil possui produção expressiva de tomate industrial, mas os dados disponíveis mostram que ainda existem diferenças entre a oferta doméstica e a demanda atendida pelo comércio internacional.
O avanço dessa cadeia dependerá de resultados tanto dentro quanto fora das propriedades rurais.
É justamente essa conexão que torna o assunto interessante: por trás de um produto comum nas prateleiras dos supermercados existe uma cadeia que envolve agricultura, tecnologia, processamento industrial e comércio exterior.
Fontes consultadas
Notícias Agrícolas. Guilherme Dorigatti. Reportagem publicada em 30 de setembro de 2026: Brasil processa mais de 1 milhão de toneladas de tomate ao ano, mas ainda tem déficit em pasta. Fonte da pauta, dos dados comerciais atribuídos à Tomato News e das informações fornecidas pela Kraft Heinz.
World Processing Tomato Council (WPTC). World Production Estimate, fevereiro de 2026. Dados históricos de tomate destinado ao processamento.
World Processing Tomato Council (WPTC). Atualização da safra de 31 de julho de 2026. Projeção brasileira de aproximadamente 1,35 milhão de toneladas.
World Processing Tomato Council (WPTC). Atualização da safra de 14 de agosto de 2026. Manutenção do cenário informado anteriormente para o Brasil.
IBGE. Produção de tomate no Brasil. Dados da produção agrícola nacional em 2025.
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