Chuvas e doenças no morangueiro: como o manejo integrado pode reduzir perdas na produção?

outubro 27, 2026

Chuvas frequentes, alta umidade e molhamento prolongado das plantas podem favorecer doenças importantes no morangueiro, como o mofo-cinzento e a antracnose. Entretanto, as perdas não dependem apenas do clima. A escolha de mudas sadias, a ventilação, a irrigação, a limpeza dos canteiros e o monitoramento são medidas que ajudam a reduzir os riscos e proteger a qualidade dos frutos.

Beatriz Karins | Engenheira Agrônoma UFPR | Bia do Agro

O morango é uma fruta de elevado valor comercial, mas também apresenta grande sensibilidade às condições de produção. Por possuir tecidos delicados e frutos altamente perecíveis, pequenas alterações no ambiente de cultivo podem influenciar diretamente sua qualidade e conservação.

Durante períodos de chuvas frequentes, um dos principais desafios enfrentados pelos produtores é o aumento do risco de doenças. O excesso de umidade favorece a atividade de diversos patógenos, enquanto a dificuldade de realizar determinadas operações de manejo pode ampliar os prejuízos.

Entretanto, é importante compreender que a chuva, por si só, não provoca uma doença infecciosa. Para que ela ocorra, é necessário que exista um agente causador, uma planta suscetível e condições ambientais favoráveis.

É justamente nessa relação que o manejo integrado de doenças se torna fundamental. Em vez de depender de uma única medida de controle, o produtor combina estratégias preventivas, culturais, físicas e, quando necessário, químicas ou biológicas, buscando reduzir a ocorrência das doenças e preservar a produção.

Por que os períodos chuvosos aumentam o risco de doenças no morangueiro?

O desenvolvimento de uma doença vegetal depende da interação entre três componentes: a presença do patógeno, a suscetibilidade da planta e as condições ambientais favoráveis. Essa relação é conhecida na fitopatologia como triângulo da doença.

Quando as chuvas se tornam frequentes, diferentes processos podem favorecer a ocorrência e a disseminação de doenças no morangueiro.

Molhamento prolongado de folhas, flores e frutos

Alguns fungos necessitam de água livre ou de períodos prolongados de umidade para germinar, penetrar nos tecidos vegetais e iniciar infecções.

Quando as plantas permanecem molhadas durante muitas horas, especialmente em ambientes com pouca circulação de ar, o risco de infecção pode aumentar.

Disseminação de patógenos pelos respingos de água

As gotas de chuva podem atingir tecidos contaminados e transportar estruturas de determinados patógenos para outras partes da planta ou para plantas vizinhas.

Esse mecanismo é particularmente importante para doenças como a antracnose, causada por fungos do gênero Colletotrichum.

Excesso de água no sistema radicular

Em solos com drenagem deficiente, o acúmulo de água reduz a disponibilidade de oxigênio para as raízes.

Essa condição prejudica o funcionamento radicular e pode favorecer doenças associadas a patógenos de solo, como espécies de Phytophthora e Pythium.

Portanto, o problema não está apenas na quantidade de chuva, mas também na duração do molhamento, na drenagem e nas condições de ventilação da lavoura.

Mofo-cinzento: uma das principais ameaças aos frutos

O mofo-cinzento é causado pelo fungo Botrytis cinerea e está entre as doenças de maior importância para a qualidade comercial do morango.

O patógeno pode infectar diferentes estruturas da planta, incluindo flores e frutos. Em condições favoráveis, a doença provoca podridões que comprometem a aparência e a comercialização.

Nos frutos, os sintomas podem começar com áreas amolecidas ou de coloração alterada. Com a evolução da doença, pode surgir uma massa acinzentada formada pelas estruturas reprodutivas do fungo.

Um aspecto importante é que infecções podem ocorrer durante a floração e permanecer sem sintomas evidentes até fases posteriores do desenvolvimento dos frutos.

Isso significa que a ausência de podridão visível em determinado momento não garante que o risco de perdas tenha desaparecido.

Segundo orientações técnicas da Embrapa, o manejo do mofo-cinzento deve considerar a remoção de tecidos doentes e mortos, a redução do molhamento das plantas, a ventilação e a proteção da cultura contra chuvas.

O adensamento excessivo também merece atenção, pois dificulta a circulação de ar e pode prolongar a permanência de umidade no interior da vegetação.

Antracnose: como a umidade favorece sua disseminação?

A antracnose do morangueiro está associada a diferentes espécies de fungos do gênero Colletotrichum.

Dependendo da espécie envolvida e da estrutura afetada, a doença pode provocar lesões em frutos, pecíolos, estolões, flores e na coroa da planta.

Entre os sintomas que podem ser observados estão:

  • Lesões escuras e deprimidas nos frutos;
  • Escurecimento e necrose de flores;
  • Lesões em pecíolos e estolões;
  • Murcha e morte de plantas quando a coroa é comprometida.

A água tem papel importante na disseminação de estruturas do patógeno. Respingos de chuva e irrigação por aspersão podem transportar o inóculo entre plantas e estruturas vegetais.

Temperaturas favoráveis ao patógeno, associadas à umidade elevada, podem acelerar a evolução da doença.

Outro ponto importante é a origem das mudas. Plantas aparentemente saudáveis podem transportar infecções que se manifestam posteriormente, quando encontram condições ambientais favoráveis.

Por isso, a utilização de mudas sadias e de procedência confiável é uma das principais medidas preventivas.

Podridões de raízes e coroa: quando o problema começa no solo

Nem todas as doenças associadas aos períodos chuvosos se manifestam inicialmente nos frutos.

Em áreas com drenagem deficiente, o encharcamento pode favorecer patógenos que atacam o sistema radicular e a coroa do morangueiro.

Entre os organismos associados a esses problemas estão espécies de Phytophthora e Pythium, pertencentes ao grupo dos oomicetos.

As plantas afetadas podem apresentar crescimento reduzido, murcha, amarelecimento e comprometimento do sistema radicular.

Entretanto, esses sintomas não são exclusivos de doenças. Problemas de irrigação, salinidade, compactação e outras condições também podem provocar alterações semelhantes.

Por isso, o diagnóstico deve considerar o histórico da área, a distribuição das plantas afetadas, as condições de drenagem e, quando necessário, a identificação do agente causal.

Uma decisão de controle baseada apenas na aparência das folhas pode resultar em aplicações inadequadas e gastos desnecessários.

O que é manejo integrado de doenças?

O manejo integrado de doenças consiste na combinação de diferentes estratégias destinadas a reduzir a presença dos patógenos, dificultar sua disseminação e tornar o ambiente menos favorável à ocorrência de infecções.

Na prática, o objetivo não é depender exclusivamente de aplicações de produtos fitossanitários, mas atuar sobre os fatores que determinam o desenvolvimento das doenças.

Esse manejo envolve decisões tomadas antes do plantio, durante o desenvolvimento da cultura e também na colheita e na pós-colheita.

Quanto mais cedo os fatores de risco forem identificados, maiores serão as possibilidades de evitar que pequenos focos se transformem em problemas generalizados.

Sete práticas para reduzir perdas durante períodos chuvosos

1. Utilizar mudas sadias e de procedência conhecida

A qualidade sanitária das mudas é determinante para o estabelecimento da lavoura. Mudas infectadas podem introduzir patógenos na área, aumentando a dificuldade de controle durante o ciclo.

É importante adquirir material de fornecedores confiáveis e observar o estado das raízes, da coroa e das folhas antes do plantio.

2. Priorizar áreas bem drenadas

O morangueiro não se desenvolve adequadamente em condições prolongadas de encharcamento.

O preparo dos canteiros, a drenagem e a escolha da área devem permitir o escoamento do excesso de água, evitando a saturação do sistema radicular.

Em sistemas de cultivo no solo, canteiros elevados podem contribuir para reduzir problemas associados ao acúmulo de água, desde que o manejo seja compatível com as características locais.

3. Utilizar cobertura do solo

A cobertura dos canteiros, frequentemente realizada com filmes plásticos, ajuda a reduzir o contato direto dos frutos com o solo.

Essa prática também pode diminuir a contaminação por partículas de terra e contribuir para a conservação da qualidade comercial.

Entretanto, a cobertura do solo não substitui a necessidade de drenagem e de um manejo adequado da irrigação.

4. Manejar corretamente túneis e estufas

O cultivo protegido é uma estratégia importante para reduzir o molhamento direto das plantas pela chuva.

Entretanto, instalar uma cobertura plástica não é suficiente. Se a ventilação for inadequada, a umidade pode se acumular no interior da estrutura, criando condições favoráveis ao desenvolvimento de doenças.

O manejo deve equilibrar a proteção contra a chuva e a renovação do ar, considerando temperatura, vento, condensação e risco de entrada de água.

Embrapa destaca que a ventilação adequada é fundamental para evitar que o ambiente protegido se torne excessivamente úmido.

5. Preferir irrigação localizada quando tecnicamente viável

A irrigação por gotejamento permite fornecer água diretamente à região das raízes, reduzindo o molhamento da parte aérea em comparação com a aspersão.

Essa característica pode contribuir para o manejo de doenças favorecidas pela presença de água sobre folhas, flores e frutos.

Entretanto, mesmo com gotejamento, o excesso de irrigação deve ser evitado. O volume aplicado precisa considerar a demanda da cultura, as condições do substrato ou solo e a ocorrência de chuvas.

6. Retirar tecidos doentes e manter a higiene da lavoura

Frutos apodrecidos, folhas doentes e outros resíduos infectados podem funcionar como fontes de inóculo.

A inspeção frequente e a retirada cuidadosa desses materiais ajudam a reduzir a quantidade de estruturas de patógenos disponíveis no ambiente.

Os resíduos devem receber destinação adequada, evitando sua permanência junto aos canteiros.

Também é importante higienizar ferramentas, caixas e materiais utilizados na colheita, especialmente quando existe risco de transportar agentes causadores de doenças entre áreas.

7. Monitorar a lavoura e adotar medidas fitossanitárias com critério

O monitoramento permite identificar os primeiros sintomas e acompanhar a evolução dos problemas ao longo do ciclo.

Durante períodos chuvosos, a frequência das inspeções pode precisar ser intensificada, principalmente em áreas com histórico de doenças.

Quando o controle químico ou biológico for necessário, a escolha deve considerar o diagnóstico, os produtos registrados para a cultura e o alvo no Brasil, as orientações de bula e a recomendação de profissional habilitado.

Também é importante respeitar o intervalo de segurança, o número máximo de aplicações e as estratégias de manejo de resistência dos patógenos.

Aplicações sem diagnóstico e sem planejamento não substituem o manejo preventivo e podem elevar os custos sem resolver a causa do problema.

Como organizar o manejo antes, durante e depois das chuvas?

Uma forma prática de reduzir os riscos é organizar as decisões conforme as condições previstas e observadas na lavoura.

Antes de um período chuvoso

  • Verificar as condições de drenagem dos canteiros;
  • Inspecionar plantas com sintomas de doenças;
  • Remover frutos deteriorados e resíduos infectados;
  • Conferir a integridade das coberturas plásticas;
  • Avaliar o manejo da irrigação conforme a previsão meteorológica.

Durante as chuvas

  • Evitar operações desnecessárias com as plantas molhadas;
  • Observar pontos de acúmulo de água;
  • Monitorar a umidade e a ventilação dos ambientes protegidos;
  • Reduzir o trânsito de pessoas e equipamentos em áreas com focos de doenças.

Após as chuvas

  • Intensificar a inspeção de flores, frutos e folhas;
  • Identificar novos focos e registrar sua localização;
  • Retirar cuidadosamente materiais comprometidos;
  • Avaliar as condições das raízes em áreas encharcadas;
  • Revisar as medidas preventivas para os próximos eventos de chuva.

Essas ações não eliminam completamente a possibilidade de doenças, mas contribuem para reduzir as condições que favorecem sua instalação e disseminação.

A colheita e a pós-colheita também fazem parte do controle

O manejo de doenças não termina quando o fruto é retirado da planta.

O morango apresenta elevada perecibilidade e pode sofrer perdas rapidamente quando existem ferimentos, contaminação ou condições inadequadas de armazenamento.

Por isso, a colheita deve priorizar frutos com qualidade comercial, evitando danos mecânicos e o contato desnecessário com materiais contaminados.

Frutos com podridões não devem ser misturados aos frutos sadios destinados à comercialização.

A utilização de embalagens limpas, o manuseio cuidadoso e o resfriamento adequado após a colheita contribuem para preservar a qualidade e reduzir a velocidade de deterioração.

Esses cuidados são particularmente importantes em períodos úmidos, quando a ocorrência de podridões pode comprometer o volume efetivamente comercializado.

Qual é a principal lição para o produtor de morango?

As chuvas fazem parte da dinâmica climática da produção agrícola, mas seus efeitos sobre a sanidade do morangueiro podem ser reduzidos por meio de decisões adequadas de manejo.

Doenças como mofo-cinzento, antracnose e determinadas podridões radiculares apresentam relações importantes com a umidade, o molhamento das plantas e as condições do ambiente de cultivo.

Entretanto, a intensidade dos problemas depende também da presença dos patógenos, da suscetibilidade das plantas e das práticas adotadas na propriedade.

O manejo integrado é mais eficiente quando começa antes do aparecimento dos sintomas, combinando prevenção, monitoramento, ambiente adequado e intervenções tecnicamente justificadas.

Para o produtor, isso significa compreender que proteger a lavoura não é apenas combater doenças depois que elas aparecem. É construir um sistema de produção que reduza os riscos, preserve a qualidade dos frutos e permita maior estabilidade na comercialização.

Referências técnicas

Bia do Agro — Informação técnica e conhecimento agronômico para compreender os desafios e as oportunidades da agricultura.

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