Preço da mandioca sobe no Brasil: como o excesso de chuva interfere na colheita e na oferta?

outubro 27, 2026

As chuvas intensas estão dificultando a colheita da mandioca em importantes regiões produtoras do Brasil, reduzindo a quantidade de raízes disponível para as indústrias e contribuindo para a valorização da matéria-prima. Entretanto, a alta dos preços não significa necessariamente maior rentabilidade para todos os produtores. Entenda como o excesso de umidade afeta a colheita, a qualidade das raízes e o funcionamento do mercado.

Beatriz Karins | Engenheira Agrônoma UFPR | Bia do Agro

A mandioca (Manihot esculenta Crantz) possui grande importância econômica e social na agricultura brasileira. Cultivada em diferentes regiões do país, a cultura é utilizada tanto na alimentação humana quanto no processamento industrial, principalmente para a produção de farinha e fécula.

Embora seja frequentemente associada à rusticidade e à capacidade de adaptação a diferentes ambientes, a mandioca também apresenta limitações quando submetida a condições desfavoráveis de solo e clima.

Nos períodos de chuvas intensas, um dos principais desafios não está necessariamente na quantidade de raízes produzidas, mas na possibilidade de retirá-las do solo e transportá-las até os locais de processamento.

Esse problema ganhou destaque no mercado brasileiro em outubro de 2026.

De acordo com levantamentos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), o excesso de umidade em importantes regiões produtoras dificultou a colheita e restringiu a oferta de mandioca para as indústrias.

Em 26 de outubro, o Cepea informou que a oferta de raízes permanecia inferior à demanda industrial, sustentando a valorização da matéria-prima. A média nominal de preços havia atingido, na semana anterior, o maior patamar desde fevereiro de 2025.

Entretanto, para compreender esse movimento, é necessário analisar o que acontece no campo, como a indústria reage à menor disponibilidade de raízes e por que o aumento das cotações não representa automaticamente maior lucro ao produtor.

Por que o excesso de chuva dificulta a colheita da mandioca?

A colheita da mandioca exige a retirada das raízes tuberosas do solo, operação que pode ser realizada manualmente, de forma semimecanizada ou com o auxílio de equipamentos mecanizados.

Independentemente do sistema utilizado, as condições físicas do solo influenciam diretamente a eficiência da operação.

Quando ocorrem chuvas frequentes e o solo permanece excessivamente úmido, surgem dificuldades relacionadas à sustentação das máquinas, ao tráfego de veículos e à retirada das raízes.

Solo encharcado reduz a capacidade de tráfego

Em condições de excesso de água, a resistência mecânica do solo pode diminuir, aumentando o risco de atolamento de tratores, colhedoras e caminhões.

O tráfego nessas condições também pode provocar deformações e compactação, especialmente quando equipamentos pesados são utilizados em solos suscetíveis.

Como consequência, algumas operações precisam ser adiadas até que o solo apresente condições mais adequadas.

O arranquio das raízes se torna mais difícil

O excesso de umidade pode prejudicar a eficiência dos equipamentos utilizados na retirada da mandioca e aumentar a quantidade de solo aderido às raízes.

Dependendo da textura do solo e do sistema de colheita, a operação pode apresentar maior dificuldade de limpeza, manuseio e transporte do produto.

Em áreas com baixa drenagem, o acúmulo de água pode impedir temporariamente a entrada de máquinas.

O transporte também pode ser comprometido

Além das dificuldades dentro da lavoura, estradas rurais e acessos às propriedades podem apresentar problemas durante períodos chuvosos.

Mesmo quando a mandioca consegue ser colhida, a retirada da produção pode ser limitada pelas condições de circulação dos caminhões.

Assim, a chuva interfere em diferentes etapas da cadeia produtiva: colheita, carregamento, transporte e abastecimento industrial.

O que acontece com a oferta quando a colheita é interrompida?

Para compreender a relação entre chuva e preço, é importante diferenciar a quantidade de mandioca existente nas lavouras da quantidade efetivamente disponível para comercialização.

Uma área pode apresentar raízes prontas para a colheita, mas, se as condições do solo impedirem sua retirada, essa produção não chegará imediatamente ao mercado.

Na prática, ocorre uma redução temporária da oferta disponível.

As indústrias que dependem do fornecimento contínuo de raízes podem enfrentar dificuldades para manter o ritmo de processamento.

Se a demanda por matéria-prima permanece elevada enquanto a quantidade entregue diminui, pode ocorrer pressão de alta sobre as cotações.

Esse mecanismo ajuda a explicar parte do comportamento recente do mercado brasileiro de mandioca.

Entretanto, os preços também são influenciados por outros fatores, como a área plantada, a disponibilidade de lavouras em idade de colheita, o teor de amido das raízes e o comportamento da demanda por fécula e farinha.

Portanto, a valorização da mandioca não deve ser atribuída exclusivamente às chuvas, mas à combinação entre oferta disponível e demanda do mercado.

O que os dados de outubro de 2026 revelam?

Os levantamentos do Cepea mostram que as condições climáticas tiveram influência importante sobre o mercado de mandioca durante outubro de 2026.

Em boletim divulgado em 13 de outubro, o centro de pesquisas informou que, mesmo com a redução da frequência das chuvas em alguns locais, a umidade acumulada no solo continuava limitando os trabalhos no campo.

Segundo o levantamento, o esmagamento semanal de mandioca pelas fecularias havia recuado ao menor volume desde janeiro daquele ano.

O Cepea também apontou desenvolvimento vegetativo mais lento em determinadas lavouras implantadas entre junho e julho, além de registros pontuais de perdas associadas ao excesso de umidade.

Em 19 de outubro, novo levantamento indicou que a restrição no fornecimento de raízes continuava afetando a produção de fécula e farinha.

A produção de fécula havia diminuído por quatro semanas consecutivas nas regiões acompanhadas, enquanto a disponibilidade de matéria-prima para farinheiras permanecia limitada.

O impacto foi especialmente relevante para indústrias do Paraná, importante polo de produção e processamento de mandioca.

Já no levantamento divulgado em 26 de outubro, o Cepea destacou que a oferta permanecia abaixo da demanda industrial e que os preços da raiz haviam subido na maioria das regiões acompanhadas.

A média nominal da semana anterior atingiu o maior patamar desde fevereiro de 2025. Em termos reais, considerando a correção pelo IGP-DI, o nível foi o mais elevado desde novembro de 2025.

Esses resultados mostram que o mercado estava enfrentando dificuldades de abastecimento, mas também revelam que os efeitos das chuvas se estendem além das operações de colheita.

Como o excesso de água pode afetar o desenvolvimento da mandioca?

A mandioca apresenta capacidade de adaptação a diferentes condições de cultivo, mas não é uma espécie indicada para permanecer em solos continuamente encharcados.

O sistema radicular precisa de oxigênio para manter suas atividades metabólicas, incluindo a respiração celular e a absorção de nutrientes.

Quando os poros do solo permanecem preenchidos por água durante períodos prolongados, a disponibilidade de oxigênio diminui.

Essa condição pode comprometer o funcionamento das raízes e prejudicar o desenvolvimento da planta.

Entre os possíveis efeitos estão:

  • Redução da atividade radicular;
  • Dificuldades na absorção de nutrientes;
  • Comprometimento do crescimento vegetativo;
  • Maior suscetibilidade a determinados problemas radiculares;
  • Perdas de produtividade em situações severas ou prolongadas.

Entretanto, a intensidade dos danos depende de fatores como duração do encharcamento, estágio de desenvolvimento, características do solo e condições da lavoura.

Também é importante diferenciar uma chuva intensa de curta duração de uma condição prolongada de saturação do solo.

Uma precipitação elevada não provoca necessariamente perdas agronômicas quando existe drenagem adequada e o excesso de água é removido rapidamente.

O teor de amido também influencia a comercialização?

Sim. Na mandioca destinada ao processamento industrial, a quantidade e a qualidade do amido presente nas raízes possuem importância econômica.

As indústrias de fécula e outros derivados buscam matéria-prima que apresente rendimento adequado durante o processamento.

Por isso, o valor comercial da mandioca industrial pode depender não apenas do peso das raízes entregues, mas também de indicadores relacionados ao rendimento industrial.

O teor de amido varia conforme a cultivar, a idade da planta, as condições ambientais e o manejo.

Em determinadas situações, períodos chuvosos e alterações fisiológicas podem estar associados a mudanças no rendimento de amido das raízes.

Levantamentos do Cepea realizados ao longo de 2026 também apontaram preocupação dos produtores com reduções no teor de amido, fator que influenciou decisões de comercialização.

Isso significa que o agricultor precisa observar dois aspectos: o preço oferecido pela raiz e a remuneração efetiva considerando as características da matéria-prima.

Uma cotação mais elevada por tonelada nem sempre compensa perdas de produtividade, redução do rendimento industrial ou aumento dos custos de colheita.

Como a menor oferta de mandioca afeta as fecularias e farinheiras?

As indústrias processadoras dependem de um fluxo relativamente regular de matéria-prima para organizar suas operações.

Quando o fornecimento de raízes diminui, as empresas podem enfrentar ociosidade de equipamentos e dificuldades para manter a produção planejada.

Nas fecularias, a redução do esmagamento limita a quantidade de fécula produzida.

Nas farinheiras, a falta de mandioca pode comprometer o abastecimento e a regularidade do processamento.

Entretanto, o comportamento dos preços dos derivados não acompanha obrigatoriamente o preço da raiz na mesma intensidade.

Se a demanda por fécula ou farinha estiver enfraquecida, as indústrias podem enfrentar dificuldades para repassar os custos mais elevados da matéria-prima.

Essa situação pode reduzir as margens industriais, mesmo quando o preço da mandioca está valorizado.

Por isso, é importante diferenciar o mercado da raiz do mercado dos produtos derivados.

Os dois segmentos estão relacionados, mas respondem a condições específicas de oferta, demanda e comercialização.

O preço mais alto significa maior lucro para o produtor?

Não necessariamente.

O aumento das cotações pode melhorar a receita obtida por tonelada comercializada, mas a rentabilidade depende também da produtividade, dos custos e das perdas.

Considere um exemplo hipotético.

Um produtor que comercializa 30 toneladas por hectare a R$ 550 por tonelada obtém uma receita bruta de R$ 16.500 por hectare.

Em outro cenário, o preço aumenta para R$ 650 por tonelada, mas dificuldades de colheita e perdas reduzem a quantidade comercializada para 24 toneladas por hectare.

Nesse caso, a receita bruta seria de R$ 15.600 por hectare.

Apesar do preço 18,2% maior por tonelada, a receita bruta seria inferior à do primeiro cenário.

Além disso, o produtor poderia enfrentar custos adicionais relacionados à operação de colheita, ao transporte e ao tempo de permanência da produção no campo.

Esse exemplo é ilustrativo e não representa uma média nacional de produtividade ou de preços.

A principal conclusão é que a valorização de mercado precisa ser analisada juntamente com a quantidade efetivamente comercializada e o custo total de produção.

Por que o Paraná merece atenção nesse cenário?

O Paraná possui relevância na cadeia produtiva da mandioca, especialmente no processamento industrial da raiz para produção de fécula e outros derivados.

A presença de indústrias processadoras cria uma relação direta entre o fornecimento de mandioca pelas propriedades rurais e o funcionamento das unidades industriais.

Durante períodos de chuva, dificuldades de colheita e transporte podem reduzir o volume entregue às empresas.

Em outubro de 2026, os levantamentos do Cepea apontaram restrições no abastecimento de farinheiras, com impactos importantes sobre unidades paranaenses.

Esse comportamento mostra que as condições climáticas regionais podem influenciar tanto a renda agrícola quanto a atividade industrial.

Entretanto, o comportamento das cotações pode variar entre municípios e regiões, dependendo da disponibilidade local de raízes, da demanda industrial e das condições comerciais.

Quais medidas podem reduzir os prejuízos em períodos chuvosos?

Embora o produtor não consiga controlar a ocorrência das chuvas, diferentes decisões de planejamento e manejo podem reduzir os riscos associados ao excesso de umidade.

1. Escolher áreas com condições adequadas de drenagem

A mandioca deve ser cultivada em áreas compatíveis com suas exigências e com condições que permitam o desenvolvimento das raízes.

Solos sujeitos a encharcamento frequente exigem atenção especial, pois o excesso de água pode comprometer o crescimento e dificultar as operações de campo.

2. Evitar o tráfego de máquinas em solo saturado

O tráfego de equipamentos pesados em condições inadequadas pode aumentar o risco de compactação, formação de trilhas profundas e danos à estrutura do solo.

Quando possível, as operações devem ser realizadas em condições de umidade compatíveis com a capacidade de suporte do terreno.

3. Planejar a colheita com antecedência

A programação da colheita deve considerar a idade das lavouras, as condições climáticas, a disponibilidade de mão de obra e equipamentos e a demanda dos compradores.

O acompanhamento das previsões meteorológicas pode auxiliar na organização das operações, embora não elimine as incertezas climáticas.

4. Manter acessos e estradas internas em boas condições

A logística da propriedade influencia diretamente a capacidade de retirar a produção do campo.

A manutenção preventiva de acessos, sistemas de drenagem e pontos críticos de circulação pode reduzir interrupções no transporte durante períodos úmidos.

5. Acompanhar o rendimento industrial das raízes

Para a mandioca destinada à indústria, a avaliação do teor de amido e das condições de comercialização ajuda a compreender a remuneração efetiva.

O produtor deve observar os critérios de pagamento utilizados pelos compradores e comparar propostas considerando o rendimento e os custos envolvidos.

6. Registrar custos e perdas de colheita

O acompanhamento dos custos operacionais permite avaliar se a valorização da raiz está sendo suficiente para compensar despesas adicionais.

Registros de produtividade, quantidade comercializada, custos de colheita e preço recebido ajudam a orientar decisões futuras.

O que pode acontecer com os preços quando as chuvas diminuírem?

A melhora das condições de campo pode permitir a retomada da colheita e ampliar a quantidade de raízes entregue às indústrias.

Entretanto, isso não significa que os preços necessariamente cairão de maneira imediata.

O comportamento das cotações dependerá da disponibilidade de lavouras aptas à colheita, do interesse dos produtores em comercializar, da demanda industrial e dos estoques de derivados.

Também é necessário considerar o calendário agrícola.

Mesmo com condições favoráveis para o arranquio, parte dos produtores pode priorizar outras operações, como o plantio da mandioca ou de culturas alternativas.

Além disso, perdas ocorridas durante períodos prolongados de encharcamento não são automaticamente recuperadas com a redução das chuvas.

Por isso, o acompanhamento do mercado deve considerar tanto as condições climáticas quanto os indicadores de produção e processamento.

O que o produtor deve compreender sobre a alta da mandioca?

A valorização recente da mandioca no Brasil está relacionada a um cenário de oferta restrita, dificuldades de colheita e demanda industrial por matéria-prima.

As chuvas intensas interferem na capacidade de retirada das raízes, no transporte e na regularidade do abastecimento das indústrias.

Além disso, o excesso prolongado de água no solo pode comprometer o desenvolvimento das plantas e contribuir para perdas em determinadas condições.

Entretanto, o aumento do preço não significa automaticamente melhores resultados econômicos para todos os agricultores.

A rentabilidade depende da quantidade comercializada, do teor de amido, dos custos operacionais e das condições de negociação.

O principal aprendizado é que o preço da mandioca não depende apenas da produção existente no campo, mas também da capacidade de colher, transportar e entregar essa produção ao mercado.

Para o produtor, acompanhar as condições climáticas, planejar a colheita e avaliar os custos de comercialização são medidas importantes para enfrentar períodos de maior instabilidade.

Na agricultura, uma boa produtividade é fundamental, mas transformar a produção em renda também depende de logística, qualidade e acesso ao mercado.

Referências e fontes de consulta

  • CEPEA/ESALQ-USP. Oferta restrita eleva preço da raiz de mandioca ao maior patamar desde fevereiro de 2025. Boletim de 26 de outubro de 2026, reproduzido pelo Notícias Agrícolas. Consultar boletim.
  • CEPEA/ESALQ-USP. Chuvas restringem colheita e reduzem esmagamento. 13 de outubro de 2026. Consultar análise.
  • CEPEA/ESALQ-USP. Chuvas reduzem processamento e estoques de derivados. 19 de outubro de 2026, reproduzido pelo Notícias Agrícolas. Consultar levantamento.
  • CEPEA/ESALQ-USP. Menor oferta e chuvas sustentam alta no preço da raiz. 14 de setembro de 2026, reproduzido pelo Agrolink. Consultar levantamento.
  • COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO (CONAB). Análise Mensal — Mandioca. Novembro de 2025. Consultar análise histórica.

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