Boletim oficial do INPE e de outros órgãos federais aponta 95% de probabilidade de El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026. A previsão indica maior tendência de chuvas no Sul e condições mais secas no centro-norte do Brasil. Entenda o que esse cenário pode representar para produtores de hortaliças e frutas.
Beatriz Karins | Engenheira Agrônoma UFPR | Bia do Agro
O El Niño voltou a ganhar destaque nas previsões climáticas brasileiras, e asinformações divulgadas no início de outubro merecem atenção de quem trabalha com agricultura.
Segundo o Boletim nº 4 do Painel El Niño 2026–2027, publicado em 1º de outubro pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), existe 95% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte no trimestre de outubro a dezembro de 2026.
O documento foi elaborado com a participação de diferentes instituições federais, incluindo INPE, INMET, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Censipam.
Mas o que essa informação significa para quem produz hortaliças, frutas ou trabalha com assistência técnica agrícola?
Mais importante do que olhar apenas para a intensidade prevista do fenômeno é compreender que seus efeitos não serão necessariamente iguais em todas as regiões brasileiras.
O que o boletim oficial diz sobre o El Niño de 2026?
De acordo com o INPE, as condições de El Niño foram confirmadas em junho de 2026. Desde então, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial apresentou intensificação.
No final de setembro, as anomalias de temperatura da superfície do mar ultrapassaram 2 °C em regiões do Pacífico Equatorial central e leste, conforme dados da agência norte-americana CPC/NOAA apresentados pelo instituto.
O novo boletim aponta elevada probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, podendo persistir pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.
Caso esse cenário se confirme, o evento poderá estar entre os mais intensos registrados desde 1950.
É importante compreender que estamos falando de uma previsão climática. A intensidade efetivamente observada e os impactos regionais deverão continuar sendo acompanhados nas próximas atualizações oficiais.
Como o El Niño pode afetar as diferentes regiões do Brasil?
O boletim apresenta tendências distintas para o território brasileiro.
Na Região Sul, a previsão para o trimestre outubro, novembro e dezembro indica condições de chuva acima da média, mantendo atenção para a possibilidade de cheias.
No centro-norte do país, o cenário predominante é de condições mais secas, com maior risco de fogo em determinadas áreas.
As temperaturas também devem permanecer acima da média em grande parte do território nacional.
O INPE ressalta que essas informações representam tendências sazonais. Isso significa que não é possível afirmar que todos os municípios de uma região apresentarão exatamente o mesmo comportamento meteorológico.
Para o produtor rural, essa distinção é fundamental.
O que um El Niño muito forte pode significar para a horticultura?
Na produção de hortaliças, as condições meteorológicas interferem diretamente no planejamento das operações agrícolas.
O excesso de chuva pode dificultar o acesso às áreas de cultivo, interferir no preparo do solo, no transplantio, nas aplicações e na colheita.
Em determinadas condições, períodos prolongados de elevada umidade também podem favorecer doenças, especialmente quando existe combinação de temperatura adequada ao patógeno e molhamento prolongado das plantas.
Por outro lado, nas regiões onde predominar menor disponibilidade de chuva e temperaturas elevadas, o manejo da água ganha ainda mais importância.
Isso não significa que o El Niño provocará obrigatoriamente perdas na horticultura. Os efeitos concretos dependerão da cultura, da localização, da fase de desenvolvimento e das condições de manejo.
Excesso de chuva: por que as raízes merecem atenção?
Quando o solo permanece saturado por períodos prolongados, a disponibilidade de oxigênio na região das raízes pode diminuir.
Essa condição prejudica a respiração radicular e pode comprometer a absorção de água e nutrientes.
Dependendo da intensidade e duração do encharcamento, podem ocorrer redução de crescimento, perda de vigor e danos ao sistema radicular.
Além disso, determinadas doenças radiculares são favorecidas por condições de umidade elevada, embora isso dependa do organismo envolvido.
Por isso, em áreas sujeitas ao acúmulo de água, avaliar drenagem e condições físicas do solo é uma medida importante de planejamento.
Se quiser compreender melhor os sintomas associados ao comprometimento das raízes, veja também nosso artigo sobre como saber se uma planta está morrendo pela raiz.
Mais chuva significa automaticamente mais doenças?
Não.
O desenvolvimento de uma doença depende da interação entre uma planta suscetível, um agente causador e condições ambientais favoráveis.
Períodos de elevada umidade podem favorecer determinadas doenças, mas isso não significa que todas elas aumentarão da mesma maneira.
Na horticultura, o acompanhamento fitossanitário precisa considerar a espécie cultivada, o histórico da área e os sintomas efetivamente observados.
O planejamento preventivo também envolve práticas como manejo adequado da irrigação, monitoramento das plantas e redução de condições favoráveis a problemas conhecidos na cultura.
Aplicações preventivas indiscriminadas, sem considerar recomendações técnicas e produtos registrados, não devem ser tratadas como resposta automática a uma previsão de chuva.
E nas regiões com seca e calor acima da média?
Nas áreas onde houver redução das chuvas e temperaturas elevadas, a disponibilidade de água poderá se tornar um dos principais fatores de atenção.
O aumento da demanda atmosférica pode elevar a perda de água por evaporação e transpiração, dependendo das condições locais.
Isso exige acompanhamento da umidade do solo, avaliação da disponibilidade hídrica e planejamento da irrigação conforme as necessidades da cultura.
Entretanto, aumentar automaticamente a frequência de irrigação não significa melhorar o manejo.
A quantidade de água aplicada deve considerar as características do solo, o desenvolvimento das raízes e a demanda da planta.
Para entender melhor essa relação, veja nosso conteúdo sobre quantas vezes por semana devemos regar as plantas.
Quais podem ser os impactos na fruticultura?
A fruticultura reúne espécies com exigências bastante diferentes de temperatura, água e condições ambientais.
Por isso, não seria correto afirmar que um El Niño muito forte terá o mesmo efeito sobre videiras, citros, bananais, mangueiras ou outras frutíferas.
O impacto depende da região produtora, da espécie, da cultivar, da fase fenológica e da intensidade das condições meteorológicas efetivamente observadas.
Chuvas excessivas em períodos sensíveis podem interferir em operações de campo, aumentar riscos fitossanitários específicos e dificultar a colheita de determinadas frutas.
Já o déficit hídrico, quando ocorre em fases críticas, pode comprometer processos fisiológicos e afetar o desenvolvimento e a produção.
Esses são riscos agronômicos que precisam ser avaliados localmente, e não perdas já confirmadas pelo boletim climático.
O planejamento da colheita também pode precisar de ajustes
Na produção de hortaliças e frutas, a colheita representa uma etapa especialmente sensível às condições meteorológicas.
Períodos de chuva intensa podem dificultar o deslocamento de máquinas e trabalhadores, comprometer o acesso às propriedades e interferir no transporte dos produtos.
Dependendo da cultura, também podem ocorrer dificuldades relacionadas à qualidade e à conservação pós-colheita.
Por isso, acompanhar as previsões de curto prazo é tão importante quanto conhecer as tendências climáticas sazonais.
O boletim do El Niño ajuda a compreender o cenário mais amplo, mas não substitui a previsão meteorológica utilizada para decidir quando realizar uma operação agrícola.
O que produtores de hortaliças e frutas podem fazer agora?
A principal orientação é transformar a informação climática em planejamento, sem interpretar uma tendência sazonal como certeza de um evento específico na propriedade.
Nas regiões com perspectiva de maior precipitação, vale revisar as condições de drenagem, identificar áreas historicamente sujeitas ao encharcamento e acompanhar as condições de acesso e operação.
Nas áreas com tendência de menor disponibilidade hídrica, o planejamento deve considerar fontes de água, funcionamento do sistema de irrigação e acompanhamento da umidade do solo.
Em ambos os cenários, o monitoramento fitossanitário e o registro das condições observadas na propriedade ajudam a fundamentar decisões.
Também é importante acompanhar avisos meteorológicos, alertas hidrológicos e orientações oficiais de defesa civil quando houver risco de eventos extremos.
95% de probabilidade significa que haverá perdas agrícolas?
Não. Essa é uma distinção muito importante.
O percentual informado pelo Painel El Niño refere-se à probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte no trimestre analisado.
Ele não representa a probabilidade de uma determinada propriedade sofrer prejuízos, nem permite calcular diretamente a perda de produtividade de uma cultura.
Para avaliar impactos agrícolas, precisamos considerar as condições meteorológicas efetivamente registradas, a localização, as características do sistema produtivo e a capacidade de adaptação do manejo.
Portanto, o boletim deve ser utilizado como ferramenta de acompanhamento e preparação, e não como previsão individual de perdas.
O El Niño de 2026 exige atenção contínua
O novo boletim oficial apresenta um cenário climático que merece acompanhamento por parte de produtores, técnicos e demais profissionais ligados à agricultura.
Para a horticultura e a fruticultura, a principal mensagem é que os riscos podem ser bastante diferentes entre regiões com excesso de chuva e aquelas sujeitas a condições mais secas e quentes.
Não existe uma recomendação única capaz de atender todas as culturas e propriedades.
O caminho é acompanhar as atualizações oficiais, compreender os riscos locais e ajustar o planejamento agrícola às condições reais de cada sistema produtivo.
Fontes consultadas
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Publicação de 1º de outubro de 2026. Painel El Niño 2026–2027: quarto boletim sobre o monitoramento do fenômeno no Brasil é publicado.
Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Boletim do Painel El Niño nº 04: potenciais impactos e orientações.
Painel El Niño 2026–2027. Boletim nº 4, setembro de 2026. Documento técnico elaborado conjuntamente por instituições federais para monitoramento do fenômeno, análise das tendências climáticas e avaliação dos possíveis impactos no Brasil.
Nota editorial: as informações climáticas apresentadas correspondem ao boletim oficial divulgado em 1º de outubro de 2026. As orientações agronômicas discutidas neste artigo representam possíveis implicações para os sistemas de produção e não constituem previsão individualizada de perdas agrícolas.
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