O plantio direto também pode ser utilizado na produção de hortaliças. Conheça o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), seus três princípios, a importância das plantas de cobertura e os cuidados necessários para implantar esse manejo na propriedade.
Beatriz Karins | Engenheira Agrônoma UFPR | Bia do Agro
Quando ouvimos falar em plantio direto, normalmente pensamos em grandes lavouras de soja, milho ou trigo. Mas você sabia que essa prática também pode fazer parte da produção de hortaliças?
O assunto chamou minha atenção após ler uma publicação do Jornal Tradição Regional, divulgada em 2 de outubro de 2026, sobre o 2º Seminário Regional de Horticultura, realizado em Arroio do Padre, no Rio Grande do Sul.
O encontro reuniu produtores, técnicos e pesquisadores para discutir o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), bioinsumos e desafios da horticultura. A programação contou com a participação de profissionais da Embrapa, Emater/RS-Ascar e Universidade Federal de Pelotas (UFPel), além de uma atividade prática em propriedade rural.
Essa notícia traz uma oportunidade interessante para explicar uma tecnologia que vai muito além de simplesmente deixar de arar o solo.
Afinal, como funciona o plantio direto de hortaliças e quais cuidados precisamos considerar antes de adotá-lo?
O que é o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH)?
O SPDH é um sistema conservacionista de produção que busca melhorar e preservar as condições do solo por meio da integração de diferentes práticas de manejo.
De acordo com a Embrapa Hortaliças, ele é fundamentado em três princípios básicos:
- Revolvimento localizado do solo, restrito às linhas, sulcos ou covas de plantio.
- Rotação e diversificação de culturas, incluindo plantas de cobertura.
- Manutenção permanente de cobertura viva ou morta sobre o solo.
Esses princípios trabalham em conjunto. Portanto, apenas plantar uma hortaliça sobre uma camada de palha não significa, necessariamente, que toda a área esteja sendo conduzida dentro de um sistema de plantio direto consolidado.
1. Revolver menos o solo: por que isso importa?
No preparo convencional, operações como aração e gradagem podem mobilizar uma parcela considerável do solo antes de cada novo cultivo.
No SPDH, a proposta é reduzir essa movimentação, realizando intervenções localizadas somente onde forem necessárias para estabelecer as plantas.
Essa estratégia contribui para preservar a estrutura do solo e manter os resíduos vegetais da cultura anterior na superfície.
Também pode ajudar a reduzir processos erosivos associados à desagregação e ao transporte das partículas do solo pela água.
Entretanto, diminuir o revolvimento não significa ignorar problemas já existentes na área.
Solos com limitações físicas importantes, compactação ou drenagem inadequada precisam ser avaliados tecnicamente antes da implantação do sistema.
2. Plantas de cobertura: o que são e qual sua função?
As plantas de cobertura representam um dos componentes fundamentais do SPDH.
Elas são cultivadas com o objetivo de produzir biomassa, proteger a superfície do solo, contribuir para a ciclagem de nutrientes e participar da diversificação do sistema produtivo.
Após o manejo dessas plantas, os resíduos vegetais podem permanecer sobre o terreno, formando a chamada palhada.
Entre as espécies utilizadas em diferentes condições estão aveia-preta, centeio, milheto, crotalárias, ervilhaca e outras plantas adaptadas à região e ao calendário agrícola.
A escolha deve considerar clima, disponibilidade hídrica, época de cultivo, produção de biomassa e compatibilidade com a hortaliça que será implantada posteriormente.
Por que não utilizar sempre a mesma planta de cobertura?
Espécies diferentes apresentam características próprias de crescimento, arquitetura radicular, composição dos resíduos e velocidade de decomposição.
As gramíneas, por exemplo, frequentemente são utilizadas pela produção de biomassa e pela possibilidade de formar uma cobertura mais duradoura, dependendo da espécie e do estádio de manejo.
Já as leguminosas podem contribuir com a fixação biológica de nitrogênio, quando estabelecem associação eficiente com os microrganismos apropriados.
Consórcios entre diferentes grupos vegetais também podem ser utilizados, desde que sejam adequados aos objetivos e às condições do sistema produtivo.
3. Cobertura permanente: por que não deixar o solo descoberto?
Uma das características mais visíveis do plantio direto é a presença de resíduos vegetais sobre a superfície.
Essa camada atua como uma proteção física, reduzindo o impacto direto das gotas de chuva e contribuindo para diminuir o escoamento superficial e a erosão.
A palhada também modifica as condições térmicas e hídricas próximas à superfície do solo.
Segundo a Embrapa, o SPDH pode proporcionar melhoria no microclima para o estabelecimento das mudas, amenizando extremos de temperatura e favorecendo a infiltração e a retenção de água.
Outro possível benefício é a redução da emergência de determinadas plantas espontâneas, devido à barreira física proporcionada pela cobertura.
Isso não significa que a palhada elimine completamente a necessidade de manejo de plantas daninhas.
Como funciona o plantio direto de hortaliças na prática?
A implantação começa antes do transplantio ou da semeadura da hortaliça comercial.
Primeiro, é necessário avaliar as condições da área, conhecer o histórico de cultivo e planejar a sequência de espécies que serão utilizadas.
Depois, estabelece-se a planta de cobertura escolhida. Seu desenvolvimento deve proporcionar biomassa suficiente para atender aos objetivos do sistema.
No momento adequado, essa vegetação é manejada, podendo ser acamada, cortada ou triturada, conforme a espécie e a estratégia adotada.
Os resíduos permanecem sobre a superfície, e a implantação da hortaliça é realizada mediante abertura localizada de covas ou sulcos.
Durante o cultivo comercial, o manejo da irrigação, da fertilidade e da sanidade continua sendo necessário.
Após a colheita, o planejamento deve contemplar a continuidade da cobertura e da rotação, evitando que a área retorne a períodos prolongados de solo descoberto.
Quais hortaliças podem ser produzidas em plantio direto?
O SPDH pode ser adaptado a diferentes grupos de hortaliças, mas as exigências de implantação e condução variam entre as espécies.
A Embrapa disponibiliza materiais técnicos específicos envolvendo brássicas, cucurbitáceas, solanáceas e cebola, demonstrando que existem diferentes possibilidades de aplicação.
Também há experiências documentadas com mandioquinha-salsa, inclusive em sistemas produtivos de Santa Catarina.
Entretanto, nem todas as hortaliças apresentam a mesma facilidade de adaptação ao plantio direto contínuo.
Algumas culturas que exigem operações específicas de preparo, formação de canteiros ou movimentação do solo podem demandar adaptações importantes.
Por isso, não devemos simplesmente reproduzir o manejo de uma cultura em outra sem considerar suas características agronômicas.
Quais são as principais vantagens do plantio direto de hortaliças?
Entre os benefícios potenciais descritos pela Embrapa estão a conservação do solo, a redução de processos erosivos, a melhoria das condições de infiltração de água e a proteção proporcionada pela cobertura vegetal.
Dependendo das condições de implantação e do manejo, também podem ocorrer redução de operações mecanizadas, menor necessidade de intervenções para controlar plantas espontâneas e melhorias graduais em atributos físicos, químicos e biológicos do solo.
Outro aspecto importante é o estímulo à diversificação de espécies ao longo dos ciclos produtivos.
Entretanto, os resultados não são automáticos.
O desempenho depende das características da propriedade, das espécies utilizadas, da quantidade de biomassa produzida, do histórico de manejo e da continuidade do sistema.
Plantio direto significa gastar menos água na irrigação?
A presença de cobertura vegetal pode contribuir para reduzir perdas de água por evaporação direta do solo e modificar as condições de conservação da umidade.
Em determinadas situações, isso pode favorecer o aproveitamento da água utilizada na irrigação.
Mas é importante evitar uma interpretação equivocada: o plantio direto não elimina a necessidade de acompanhar a demanda hídrica das hortaliças.
O manejo da irrigação deve continuar considerando a espécie, o estágio de desenvolvimento, as condições meteorológicas e as características do solo.
A quantidade de água aplicada não deve ser reduzida automaticamente apenas porque existe palhada na superfície.
O SPDH substitui a adubação?
Não.
As plantas de cobertura participam da ciclagem de nutrientes e podem contribuir para a melhoria das condições do solo, mas isso não significa que sejam capazes de suprir, em qualquer situação, todas as necessidades nutricionais das hortaliças.
A exportação de nutrientes pela colheita continua existindo.
Portanto, o planejamento da fertilidade precisa considerar análise de solo, histórico da área, características das espécies cultivadas e recomendações técnicas regionais.
O manejo conservacionista e a nutrição equilibrada são práticas complementares.
Quais cuidados são necessários antes de implantar o sistema?
Um dos principais desafios está no planejamento da transição entre o sistema anteriormente utilizado e o SPDH.
A área precisa apresentar condições adequadas para o estabelecimento das plantas de cobertura e das hortaliças comerciais.
Também é necessário organizar o calendário produtivo, definir as espécies que serão utilizadas na rotação e avaliar como ocorrerá o manejo da biomassa.
A quantidade e a distribuição da palhada merecem atenção, assim como a disponibilidade de equipamentos ou ferramentas compatíveis com a abertura localizada de covas e sulcos.
Outro cuidado envolve o acompanhamento de pragas, doenças e plantas espontâneas. A cobertura vegetal modifica o ambiente de cultivo, mas não representa uma garantia de ausência de problemas fitossanitários.
Em propriedades que desejam iniciar a transição, o acompanhamento técnico e a avaliação gradual das condições locais ajudam a fundamentar as decisões.
E os bioinsumos? Qual é a relação com o plantio direto?
Os bioinsumos também foram abordados durante o seminário realizado em Arroio do Padre.
Entretanto, é importante compreender que SPDH e bioinsumos não são sinônimos.
O plantio direto de hortaliças representa um sistema de manejo que integra cobertura do solo, rotação de culturas e redução do revolvimento.
Já os bioinsumos constituem uma categoria de produtos, processos e tecnologias de origem biológica utilizados para diferentes finalidades agrícolas, conforme suas características e aplicações.
Um sistema de plantio direto pode envolver diferentes estratégias de manejo, e o uso de determinado bioinsumo deve ser avaliado considerando sua finalidade, a evidência técnica disponível e as exigências regulatórias aplicáveis.
O fato de esses dois temas terem sido discutidos no mesmo evento não demonstra que um bioinsumo específico aumente a produtividade ou substitua automaticamente fertilizantes e outras medidas de manejo.
O que o seminário realizado em Arroio do Padre mostrou?
O 2º Seminário Regional de Horticultura foi realizado em 24 de setembro de 2026, em Arroio do Padre (RS), conforme divulgação da prefeitura municipal e reportagem publicada posteriormente pelo Jornal Tradição Regional.
O encontro reuniu representantes da pesquisa, extensão rural e produção agrícola para discutir o SPDH, bioinsumos e desafios enfrentados pela horticultura.
A programação também incluiu uma atividade prática de plantio direto em propriedade rural.
A notícia apresenta uma iniciativa de divulgação e troca de conhecimentos técnicos. Ela não constitui, isoladamente, um experimento comparativo nem apresenta resultados científicos novos sobre a superioridade de determinado sistema ou produto.
Para compreender os fundamentos e benefícios potenciais do SPDH, utilizamos também publicações técnicas da Embrapa e material da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo.
Plantio direto é uma mudança no sistema de produção, não apenas no plantio
A principal diferença entre utilizar palhada ocasionalmente e desenvolver um Sistema de Plantio Direto de Hortaliças está na continuidade e na integração das práticas.
Não se trata apenas de reduzir uma operação de preparo do solo.
É necessário pensar na sequência de culturas, na produção de biomassa, na proteção da superfície e no desenvolvimento das condições do solo ao longo do tempo.
Na horticultura, o SPDH mostra que conservar o solo também pode fazer parte do planejamento de sistemas produtivos intensivos, desde que o manejo seja adaptado às necessidades de cada cultura e propriedade.
Fontes consultadas
Jornal Tradição Regional. Publicação de 2 de outubro de 2026. Arroio do Padre recebe 2º Seminário Regional de Horticultura.
Prefeitura Municipal de Arroio do Padre. Divulgação institucional de 24 de setembro de 2026. Notícias oficiais do município.
Embrapa Hortaliças. Sistema de plantio direto: produção de mandioquinha-salsa. Publicação técnica de 2021 sobre os princípios e benefícios do SPDH.
Embrapa Hortaliças. Sistema de plantio direto de hortaliças: introdução. Material técnico publicado em 2017.
Embrapa Hortaliças. Sistema de plantio direto de hortaliças. Materiais sobre aplicação do SPDH em diferentes grupos de culturas.
Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. Sistema de Plantio Direto de Hortaliças: método de transição agroecológica. Publicação de 2025.
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