Regar uma planta enquanto ela está no sol não significa que suas folhas serão automaticamente queimadas. O principal problema das horas mais quentes está na eficiência da irrigação, já que temperatura elevada, vento e baixa umidade podem aumentar as perdas de água. E se a planta estiver realmente precisando de água, não faz sentido deixá-la desidratar apenas porque ainda está sol.
Beatriz Karins | Engenheira Agrônoma UFPR | Bia do Agro
Você provavelmente já ouviu este conselho: “não regue as plantas no sol porque as gotas de água funcionam como uma lupa e queimam as folhas”.
Essa explicação se tornou muito popular, mas transforma uma questão complexa em uma regra simples demais.
Na prática, podemos separar duas perguntas diferentes: é possível regar uma planta enquanto está fazendo sol? E esse é o melhor momento para aproveitar a água da irrigação?
A resposta para a primeira é sim. Já a segunda depende das condições ambientais, da planta e da forma como a água é aplicada.
Então pode regar planta no sol?
Sim. Se uma planta realmente está necessitando de água, não é necessário esperar o sol desaparecer simplesmente por medo de que a irrigação queime suas folhas.
Imagine uma planta apresentando forte deficiência hídrica em uma tarde quente. Adiar uma irrigação necessária por várias horas apenas para obedecer a uma regra de horário pode prolongar o estresse.
Isso não significa que o meio de uma tarde quente seja o momento mais eficiente para realizar rotineiramente todas as irrigações.
Existe uma diferença importante entre poder regar e escolher o melhor momento para regar.
Água nas folhas funciona como uma lupa e provoca queimaduras?
A ideia de que qualquer gota de água sobre uma folha concentra a luz solar como uma lupa e inevitavelmente provoca uma queimadura não deve ser utilizada como explicação geral para evitar a irrigação durante o dia.
Folhas podem apresentar áreas secas, necrosadas ou com aparência de queimadura por diversos motivos. Temperaturas elevadas, deficiência de água, excesso de radiação para uma espécie não adaptada àquela condição, problemas nutricionais e outros tipos de estresse podem produzir sintomas que acabam sendo atribuídos à água sobre as folhas.
Por isso, observar uma mancha depois de uma irrigação realizada em um dia ensolarado não é suficiente para concluir que uma gota de água funcionou como uma lupa.
O ponto mais importante para o manejo da irrigação nas horas quentes está em outro lugar: a eficiência no uso da água.
Por que não é interessante deixar a rega sempre para o horário mais quente?
Temperatura do ar, umidade relativa e vento interferem nas perdas de água durante determinados métodos de irrigação.
Na irrigação por aspersão, por exemplo, a Embrapa destaca que vento, temperatura e umidade relativa influenciam as perdas por evaporação e a distribuição da água.
Em condições de temperatura elevada e baixa umidade relativa, essas perdas podem se tornar importantes. O vento também pode transportar as gotas para fora da região onde deveriam ser aplicadas.
Por isso, quando temos liberdade para escolher o horário de uma irrigação de rotina, períodos com condições ambientais mais favoráveis tendem a proporcionar melhor aproveitamento da água.
Qual é, então, o melhor horário?
Para vasos, jardins e pequenas hortas domésticas, o início da manhã costuma ser uma boa referência.
As temperaturas geralmente estão mais amenas e as condições podem favorecer menores perdas de água quando comparadas às horas de maior aquecimento.
Mas isso não significa que exista um horário universal que sirva para todas as plantas e todos os sistemas de irrigação.
Esse assunto merece algumas explicações adicionais. Por isso, veja também nosso artigo sobre qual é o melhor horário para regar as plantas.
O mais importante é levar água até as raízes
Quando estamos falando de um vaso ou de uma pequena horta, geralmente queremos repor água na região explorada pelas raízes.
Isso significa que não precisamos molhar toda a folhagem para que a planta seja irrigada.
Sempre que o sistema de cultivo permitir, direcionar a água para o solo ou substrato próximo à região radicular ajuda a concentrar a irrigação onde ela realmente é necessária.
Na irrigação localizada, como no gotejamento, essa lógica é ainda mais evidente, pois a água é aplicada diretamente em uma região específica do solo.
Molhar as folhas é sempre ruim?
Também não.
A chuva naturalmente molha as plantas e sistemas de irrigação por aspersão são utilizados em diferentes culturas agrícolas.
Entretanto, o tempo durante o qual as folhas permanecem molhadas pode ter importância fitossanitária.
A Embrapa explica que, na irrigação por aspersão, o período de molhamento foliar varia conforme o horário e a duração da irrigação, além de fatores como vento, umidade relativa e temperatura.
Para determinadas doenças, a presença de água livre sobre a superfície das folhas durante períodos favoráveis pode contribuir para condições adequadas à infecção.
Portanto, a preocupação com o molhamento da folhagem deve ser analisada muito mais pelo manejo da cultura e pela fitossanidade do que pela ideia simplificada de que uma gota inevitavelmente queimará a folha no sol.
E se a planta estiver murcha no meio da tarde?
Primeiro, é importante não concluir automaticamente que toda planta murcha precisa de água.
Algumas plantas podem apresentar murcha temporária durante períodos de elevada demanda atmosférica e recuperar a turgescência quando as condições ficam mais amenas.
Além disso, problemas radiculares e até excesso de água podem produzir sintomas de murcha.
Observe a umidade do solo ou substrato antes de tomar uma decisão.
Se estiver realmente seco e a planta estiver apresentando sinais de deficiência hídrica, não é necessário esperar várias horas simplesmente porque ainda está fazendo sol. A irrigação pode ser realizada direcionando a água para a região das raízes.
Cuidado para não transformar horário em calendário de rega
Saber que o início da manhã costuma ser um período interessante não significa que todas as plantas devam ser irrigadas todas as manhãs.
Essa confusão pode provocar justamente o problema contrário: excesso de água.
A necessidade de irrigação varia conforme espécie, tamanho da planta, estágio de desenvolvimento, temperatura, umidade do ar, recipiente e características do solo ou substrato.
Uma planta cultivada em um vaso pequeno e exposto ao sol pode perder água muito mais rapidamente do que outra espécie mantida em um recipiente grande e em ambiente protegido.
Se o substrato permanece úmido por muito tempo, veja também como saber se estou regando demais a planta.
Mais importante que o relógio é observar a planta
Um bom manejo da irrigação combina diferentes informações.
Precisamos observar a umidade disponível, as necessidades da espécie, as condições climáticas, a drenagem e a maneira como a água está sendo aplicada.
O horário ajuda a tornar a irrigação mais eficiente, mas não substitui essas observações.
Por isso, podemos resumir a dúvida inicial de uma maneira simples:
pode regar uma planta no sol quando ela realmente precisa de água. O que não é interessante é escolher rotineiramente as condições mais quentes e desfavoráveis para irrigar quando existe a possibilidade de utilizar um período mais ameno.
Em vez de ter medo de uma suposta “lupa” formada por cada gota, concentre sua atenção no que realmente importa: colocar a quantidade adequada de água na região das raízes, no momento em que a planta necessita.
Fontes consultadas
Embrapa. Irrigação e fertirrigação em fruteiras e hortaliças. Material técnico sobre irrigação por aspersão, perdas por evaporação e arrastamento pelo vento, temperatura, umidade relativa e definição dos horários de irrigação.
Embrapa Hortaliças. Irrigação por aspersão em hortaliças. Material técnico sobre molhamento foliar, horário de irrigação, condições climáticas e relação entre irrigação e doenças da parte aérea.
Embrapa, Agência de Informação Tecnológica. Irrigação por aspersão. Material sobre os efeitos do vento, temperatura e umidade relativa na distribuição e nas perdas de água durante a irrigação.
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